Lauro Corona: O Talento Incrível Que Nos Deixou Cedo Demais
Poucos atores conseguiram deixar uma marca tão profunda na memória afetiva da televisão brasileira quanto Lauro Corona. Com olhos azuis que hipnotizavam, sorriso tranquilo e uma presença de cena natural, ele se tornou um dos maiores galãs da década de 1980. Mais do que beleza, Lauro carregava um talento que atravessava a tela, construindo personagens que até hoje habitam o imaginário de quem acompanhou suas novelas.
Este texto é um tributo caloroso — não apenas ao artista, mas ao homem que, mesmo em uma carreira curta, brilhou intensamente e conquistou um lugar permanente no coração do público.
Primeiros passos e o encanto inicial
Lauro Del Corona nasceu no Rio de Janeiro, em 6 de julho de 1957. Desde cedo, já mostrava que tinha algo especial: um jeito elegante, mas acessível, e uma curiosidade pelo mundo artístico. Antes mesmo de pensar em televisão, já chamava atenção pelo carisma e pela postura sempre gentil.
Sua estreia veio em 1977, no programa Caso Especial: Ciranda, Cirandinha, dirigido por Daniel Filho. Foi uma participação breve, mas reveladora. Com apenas alguns minutos em cena, Lauro transmitiu frescor e autenticidade — algo raro em estreantes. Os produtores perceberam que aquele jovem tinha potencial para muito mais.
Dancin’ Days: o início do estrelato
Se havia alguma dúvida sobre o talento e o carisma de Lauro, ela acabou em 1978. Foi quando ele entrou para o elenco de Dancin’ Days, novela de Gilberto Braga que revolucionou a teledramaturgia com uma trama moderna, vibrante e cheia de referências à vida urbana e à cultura das discotecas.
Lauro viveu Beto, irmão das personagens Júlia (Sônia Braga) e Marisa (Glória Pires). Era o típico rapaz jovem, bonito e descolado, que transitava entre dramas familiares e momentos de descontração. Seus olhos azuis, somados à química em cena com Glória Pires, conquistaram de vez o público.
A novela foi um sucesso estrondoso. O país parava para ver a saga de Júlia Matos e a vida noturna embalada por músicas como Dancin’ Days dos Frenéticas. E, no meio desse furacão, Lauro consolidava seu status de galã promissor.
Os anos 80 e a consagração na TV
Os anos 1980 chegaram para coroar Lauro Corona como um dos atores mais requisitados da Rede Globo. Em uma época em que as novelas eram eventos nacionais, ele se tornou presença constante nas faixas de horário mais prestigiadas, sempre interpretando personagens que misturavam charme, intensidade e humanidade.
Em Os Gigantes (1979), interpretou Polaco, personagem que o aproximou ainda mais de grandes nomes como Dina Sfat e Tarcísio Meira.
No início da década, brilhou em Baila Comigo (1981) como Caê, contracenando novamente com Glória Pires em uma trama sobre identidade e destino.
Seguiram-se trabalhos memoráveis como Elas por Elas (1982), Louco Amor (1983), Corpo a Corpo (1984) e participações especiais que reforçaram seu prestígio.
Nessa fase, Lauro já não era apenas “o galã de olhos azuis” — era um ator respeitado pela crítica e querido nos bastidores. Sempre profissional, mantinha um clima leve nas gravações e nunca se envolvia em polêmicas, algo raro no meio artístico.
Parcerias marcantes e química com o público
Se havia algo que o público percebia de longe era a química que Lauro tinha com suas parceiras de cena. Com Glória Pires, formou um dos pares jovens mais lembrados da TV. Com Maitê Proença, encantou em tramas que mesclavam romance e drama. E com Beatriz Segall, em papeis mais densos, mostrou maturidade artística.
Seus personagens transitavam entre a leveza e a intensidade. Podia ser o jovem sonhador de Baila Comigo e, pouco depois, o homem atormentado de Corpo a Corpo. Essa versatilidade era um dos segredos do seu sucesso.
A guinada com “Direito de Amar” e o amadurecimento artístico
Em 1987, Lauro assumiu um dos papéis mais importantes de sua carreira: o protagonista da novela Direito de Amar, escrita por Walther Negrão. Na trama de época, interpretou o jovem apaixonado que enfrentava desafios de classe social e preconceitos familiares para viver um grande amor.
A novela foi elogiada pela fotografia, pelos figurinos e pela química entre Lauro e Glória Pires, que mais uma vez formou com ele um casal querido pelo público.
Esse papel marcou o amadurecimento artístico de Lauro. Seus gestos eram mais contidos, suas expressões mais sutis, e o domínio de cena demonstrava segurança. Ele havia se tornado, de fato, um ator completo.
O impacto de “Vida Nova”
Vida Nova (1988–1989) — última novela de Lauro, escrita por Benedito Ruy Barbosa. Ele viveu Manoel Victor, português recém-chegado ao Brasil que se apaixona por Ruth (Deborah Evelyn). Por complicações de saúde, Lauro se afastou das gravações em jan/fev de 1989; a trama reescreveu a saída do personagem. Na história, Manoel Victor parte para uma viagem sem volta. A despedida exibida ficou marcada pela sequência do carro sob chuva e, em off, versos de Fernando Pessoa; em outra cena comovente, Luiz Carlos Arutin (Michel) se emociona e diz “Lauro” em vez de “Manoel Victor” — o take foi mantido no ar.
Carreira no teatro e outros projetos
Embora mais conhecido pela televisão, Lauro também se aventurou no teatro, participando de peças que exploravam sua capacidade dramática e seu carisma no palco. Trabalhou em produções como O Interrogatório e A Gaivota, onde pôde experimentar personagens mais complexos, distantes da imagem de galã das novelas.
Ele também participou de especiais e minisséries, mostrando versatilidade e disposição para se desafiar. Sua presença em programas de auditório e entrevistas reforçava o lado carismático e acessível, sempre com respostas bem-humoradas e um sorriso cativante.
Estilo e influência
Lauro Corona foi, sem dúvida, um ícone de estilo dos anos 80. Seu cabelo levemente desalinhado, o olhar marcante e o jeito descontraído inspiraram jovens da época.
Revistas de moda e comportamento frequentemente destacavam seu visual, e ele se tornou referência para muitos homens que buscavam um estilo moderno, mas sem exageros.
Mais do que aparência, Lauro transmitia autenticidade. O público sentia que aquele charme não era construído para as câmeras — era natural. E isso se refletia no carinho que recebia nas ruas.
Bastidores e amizades duradouras
Nos bastidores, era conhecido por ser discreto e manter amizades verdadeiras. Glória Pires, sua grande parceira de cena, sempre falou com carinho sobre ele, destacando o profissionalismo e a generosidade. Outros colegas, como Maitê Proença e Miguel Falabella, também relembraram momentos divertidos e emocionantes ao lado do ator.
Lauro evitava conflitos e sabia separar o trabalho da vida pessoal. Mesmo sendo uma figura pública, manteve sua vida privada longe dos holofotes, algo raro para um galã de sua projeção.
A despedida
No final da década de 80, Lauro enfrentou problemas de saúde. Em 1989, faleceu no Rio de Janeiro, vítima de complicações relacionadas à AIDS, aos 32 anos de idade. Sua morte foi um choque para o Brasil, que ainda vivia sob o peso do estigma da doença e via partir um de seus artistas mais promissores.
A imprensa da época, ainda marcada pelo sensacionalismo, abordou o assunto com pouca sensibilidade. Mas para o público e os colegas, a memória que ficou foi a de um artista que brilhou intensamente, sem nunca perder a humildade.
O legado de Lauro Corona
Mais de três décadas após sua partida, Lauro Corona continua sendo lembrado com carinho. Seus trabalhos seguem reprisados, encantando novas gerações que descobrem nas novelas dos anos 80 um charme e uma energia únicos.
Ele ajudou a consolidar o papel do galã sensível, diferente do estereótipo do homem rude que predominava em décadas anteriores.
Em tempos de mudanças rápidas na TV e no comportamento social, Lauro foi símbolo de uma geração de atores que unia beleza, talento e carisma genuíno. Um artista que, mesmo em uma trajetória curta, deixou um impacto duradouro.
Uma homenagem que permanece
Falar de Lauro Corona é falar de um tempo em que a televisão brasileira vivia seu auge, em que novelas eram eventos coletivos e galãs eram ícones culturais. Ele foi, e sempre será, um desses ícones.
Seus olhos azuis continuam vivos na memória de quem o assistiu. Sua presença de cena, sua voz suave e seu jeito de conduzir emoções ainda ecoam. E, acima de tudo, permanece a lembrança de um homem que, com talento e humanidade, escreveu seu nome na história da MPB televisiva — e no coração dos brasileiros.
Linha do tempo – Carreira de Lauro Corona
Anos 1970
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1977 – Caso Especial: Ciranda, Cirandinha (TV Globo) – estreia na TV, participação em episódio dirigido por Daniel Filho.
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1978-1979 – Dancin’ Days – como Beto, irmão de Júlia (Sônia Braga) e Marisa (Glória Pires), papel que o projetou nacionalmente.
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1979 – Os Gigantes – como Polaco, contracenando com Dina Sfat e Tarcísio Meira.
Anos 1980
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1981 – Baila Comigo – como Caê, par romântico de personagens centrais, novamente ao lado de Glória Pires.
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1982 – Elas por Elas – como Gilberto, reforçando sua imagem de galã jovem.
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1983 – Louco Amor – como Ricardo, papel dramático que demonstrou maturidade artística.
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1984-1985 – Corpo a Corpo – como Rafael, um dos papéis mais lembrados da carreira, em trama sobre ambição e ética.
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1985 – A Gata Comeu – participação especial como Paulo, exibindo versatilidade em um enredo leve e romântico.
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1986 – Anos Dourados (minissérie) – como Marcos, jovem que vive conflitos típicos da juventude na década de 1950.
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1987 – Direito de Amar – protagonista masculino, par romântico de Glória Pires.
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1988-1989 – Vida Nova – como Fernando, imigrante italiano vivendo dilemas amorosos durante a Segunda Guerra Mundial.
Teatro
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O Interrogatório – peça policial que explorava diálogos tensos e profundos.
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A Gaivota – adaptação da obra de Tchékhov, permitindo a Lauro mostrar seu lado mais dramático.
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Noites de Havana – montagem romântica com atmosfera musical e sensual.
Participações em programas e especiais
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Entrevistas no Fantástico e Vídeo Show
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Presença em eventos musicais e beneficentes
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Participação em programas de auditório, sempre demonstrando simpatia e bom humor.